Policiais paulistas estão sendo assassinados
por quantias ínfimas. Meros R$ 600 ou R$ 850, devidos por alguma quadrilha ao
Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminal dos presídios
brasileiros. Isso não é teoria, mas realidade, comprovada em
investigações.
A possibilidade de que dívidas na compra de
drogas ou armas sejam anistiadas pela facção, mediante o assassinato de
policiais, foi flagrada por promotores de Justiça do Grupo Atuação Especial de
Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Em telefonemas desde uma penitenciária do oeste
daquele Estado, grampeado pelo Ministério Público, bandidos lembram a
quadrilheiros a necessidade de pagar a mensalidade do Partido do Crime (como é
chamado o PCC). Uma das formas, para os que estão na rua, é matar
policiais.
É por isso que drogados em dívida podem estar
por trás da onda de assassinatos que já ceifou a vida de 90 PMs, três agentes
penitenciários e dois policiais civis este ano. Grande parte das mortes é
encomenda do PCC, apontam investigações.
Um dos que ordenaram a morte de seis policiais
militares é Roberto Soriano, o Betinho Tiriça, que passou a outros presidiários
bilhetes encomendando o assassinato de integrantes das Rondas Ostensivas Tobias
de Aguiar (Rota), a tropa de elite da PM paulista
Tiriça, que está trancafiado em cela isolada em
Presidente Bernardes, em presídio a mais de 600 quilômetros da capital paulista,
quer vingança por duas matanças cometidas por policiais da Rota este ano. A
primeira, em agosto, quando seis assaltantes foram metralhados ao tentarem
explodir caixas-eletrônicos em um supermercado. A outra, em setembro, quando a
tropa de elite matou nove criminosos que se preparavam para "julgar" um suspeito
de estupro, em Várzea Paulista (Grande São Paulo).
A grande prova material contra os atentados
praticados pelo PCC veio em 30 de outubro, quando a PM localizou o que chamou de
"central de espionagem" do Partido do Crime em Paraisópolis, uma das maiores
favelas paulistanas. Foi localizada uma mala com anotações feitas pelo bando de
Francisco Antônio Cesário da Silva, o Piauí, um dos líderes do PCC. Ela estava
recheada com cadernos nos quais havia nomes, endereços e hábitos de policiais civis e militares
Ficou comprovado, pelos manuscritos, que os
policiais eram seguidos por criminosos, que sabiam o percurso dos agentes e até
seus hábitos, como jogo de futebol e sinuca. A motivação para os assassinatos é
diversificada. Alguns policiais seriam eliminados por atrapalhar, no serviço,
ações do PCC. Outros, por estarem envolvidos na morte de integrantes da facção.
E, conforme investigações, alguns por cobrarem suborno em área controlada pelo
Partido do Crime. Um quarto grupo é composto de policiais de rua, que seriam
eliminados por serem alvos fáceis e como retaliação, aleatória, contra outros
agentes que prejudicaram o PCC.
A apreensão da lista só aconteceu porque a
comunidade foi tomada pelos policiais militares, num cerco denominado Operação
Saturação. Ela ocorre em quatro regiões da periferia da Capital e Grande São
Paulo.
Numa tentativa de neutralizar as ameaças, o
governo estadual e o governo federal combinaram o isolamento de Piauí. Ele foi
transferido de Avaré (SP) para a Penitenciária Federal de Porto Velho
(Rondônia).
ENTREVISTA: Sargento jurado de morte pelo
PCC
Sargento com 36 anos de serviço, Schmidt (foto,
no detalhe) é um dos 40 policiais militares jurados de morte pelo PCC. Sua
rotina estava descrita em minúcias nos manuscritos apreendidos num QG da facção,
na favela de Paraisópolis. Acompanhe entrevista exclusiva a ZH:
Zero Hora — Como o senhor recebeu a notícia de que está marcado para morrer?
Sargento Schmidt – Cara... nunca fui de ter medo. Convivi no meu bairro com os "malas" (assaltantes), eles na deles, eu na minha. Agora, os noias (viciados) que devem para o Partido (PCC) devem ter entregue minha rotina. Alguma dívida, que tem de ser paga com sangue. Meu sangue, veja só. Logo eu, que ando na linha. Tem muito policial sem-vergonha, mas eu não sou. Nunca me corrompi.
FONTE: ZERO HORA
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